Salve, salve a simpatia!

Outro dia uma amiga panamenha esteve pela primeira vez no Brasil e veio visitar justamente o Rio. A primeira provação foi passar meia hora com o um funcionário do Maracanã tentando se fazer entender em um dia de clássico de futebol. Ela dizia em Espanhol “Yo quiero recorrer el Maracanã HOYYYY.”. E o indivíduo sorria e dizia “Oiiiii, tudo bem?”. E ela retrucava, “Nooo, quiero decir hoyyyyy” e fazia gestos para que ele entendesse que se trava de “hoje”. E o simpático funcionário, mais uma vez, lhe estendia a mão e dizia “Oiiii”, pensando que ela estava lhe cumprimentando. E assim ficaram por uns bons minutos até que alguém indicou a ela onde era o atendimento turístico.

Muita gente lendo isso vai pensar… “Como pode uma coisa dessas num ponto turístico tão importante. Imagina como vai ser nas Olimpíadas”… E, pronto… Nosso complexo de patinho feio vai nos atingir em cheio. Afinal, “Somos uns despreparados”.  Mas vamos ao que importa de fato: o que ficou dessa experiência para a minha amiga panamenha? Respondo: nada mais que uma lembrança divertida que dará brilho e graça às suas histórias de viagem e de como o aclamado “portunhol” ou “espanguês”, que nos orgulhamos tanto de falar (nós e eles), nos prega peças.

A verdade é que passamos algumas horas rindo bastante das suas aventuras e dificuldades com o idioma local. Ela adorou tudo que viu e fez. Porque é assim quando estamos de férias em algum país estranho. Tratamos de nos divertir, interagir, de entender as diferenças culturais e não de procurar defeitos. Somos nós que nos esforçamos para que nos compreendam e não ao contrário. Então, vamos ter menos autocrítica e mais disposição em ajudar e pôr a mão na massa também.

Não que a simpatia substitua o profissionalismo quando o assunto é prestação de serviços. Mas sem dúvida é o que salva quando tudo dá errado. Só com o esforço em bem-servir, em ser prestativo, é possível desarmar uma pessoa que já está pronta para seus cinco minutos de “não me segura que estou cheia de razão’. Um sorriso não resolve, mas ajuda muito.

A impressão que dá é que de tanto ser maltratado, estamos perdendo o bom-humor. Como se viver numa cidade com tanta beleza não fosse mais suficiente. E não é mesmo. O problema é que essa irritação está mexendo com o espírito do carioca. E para não ficar parecendo pessoal, estendo a crítica para os brasileiros. No computo geral o nosso estado de ânimo sempre foi o nosso maior bem imaterial quando o assunto é receber. E perder isso, sim, pode nos derrubar. Esse nosso espírito alegre sempre foi uma marca no mundo.

Não é ri de tudo. Nem fazer piada de coisa séria. Nem muito menos ser inconveniente ou invasivo, com intimidades excessivas. Se trata apenas de levar a vida mais leve e não encarar tudo a ferro e fogo. É não colocar nas costas dos outros o peso das mazelas que carregamos no nosso dia-a-dia.

Indignar-se, protestar, exigir seus direitos é o que nos empurra para frente como sociedade. Mas não dá pra subir no palanque toda vez que algo sai fora do script. Qualquer coisa já é motivo para desfiar um rosário lamentações que começam sempre por “só aqui no Rio que acontece…”. Tem um monte de coisa que só acontece no Rio, e muitas são maravilhosas. Precisamos reaprender a vê-las.

Daqui para as Olimpíadas temos que treinar esse espírito carioca. Recuperar a alegria. Assim, como um atleta treina para conquistar o pódio, vamos ter que exercitar nossa paciência, tolerância, gentileza e, principalmente, nosso sorriso.

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